“Aos que desprezam o corpo quero dizer-lhes a minha opinião. Não devem mudar de preceito, nem de doutrina, mas, simplesmente, desfazerem-se do corpo, o que lhes tornará mudos”
” O corpo é uma grande razão , uma multiplicidade com um só sentido, uma guerra e uma paz, um rebanho e um pastor”
” De traz de seus pensamentos e sentimentos, meu irmão, há um amo mais poderoso, um guia desconhecido, que se chama ” o próprio Ser”. Habita em teu corpo; é teu corpo”.
” Há mais razão em teu corpo que em tua melhor sabedoria. E quem sabe para que necessita teu corpo precisamente de tua melhor sabedoria?”
Yves Klein- Salto no vazio
Este trabalho começou no final do ano de 2008 , teve três pontos de partidas importantes, as aulas de Laboratório de Criação, as aulas de Filosofia, onde estudavamos Platão e Nietzche (ambas aulas dentro do curso Comunicação das artes do corpo -Puc) e minha rotina de trabalho, que na época, trabalhava pelo menos uma vez , duas por semana; nesta rotina foram aparecendo movimentos no chão em diálogo com uma música composta pelo músico Henrique Iwao.
No primeiro semestre de 2009 continuei com essa pesquisa ,conseguindo chegar a um pré- sentido e um pré-titulo, resolvi mandar para o Rumos dança Itaú Cultural essa nova etapa.
Agora nesse segundo semestre dentro do Rumos , vejo como está sendo importante poder me dedicar mais para o trabalho e descobrir um pouco mais como que se dá o meu processo de pesquisa.
Convidei Key Sawao para uma orientação, um acompanhamento do trabalho em estúdio e o músico Felipe Ribeiro para o diálogo músical.
Ando percebendo que meus trabalhos demandam processos longos no tempo, o trabalho é com calma; Até o corpo pegar, achar sentidos e executar com clareza, demora ( o tempo do corpo é lento, exige calma, persistência e escuta).
Meu caminho não é da representação e sim do exercício de a cada dia dançar o momento presente, seja o que for, e assim construindo sentidos, através da concentração na execução de movimentos que parte da sensação.
Com o tempo, vou percebendo o que tende a permanecer naturalmente de gestos e intenções, esses que me interessam.
Chamo minha primeira etapa dessa pesquisa de coleta de gestos, onde, danço livremente com a intenção do dia, e vou selecionando os gestos que permanecem e que me geram sentido ao executar e observar( através de gravações dos improvisos).
Ao me escrever no Rumos, já tinha achado um pequeno sentido no corpo, um ponto de partida, mas nada muito desenvolvido, necesitava de desenvolvimento e aprofundamento.
O rumos está servindo para o desenvolvimento e aprofundamento desse pequeno sentido.
Recomecei com a idéia de começar com essa intenção- sentido que construi no corpo, mas me livrar das formas já feitas, para abrir o leque de possibilidades; na prática vi que não tinha como me livrar dessas formas e sim aprofundá-las.
Vejo que foi uma boa estratégia, pois seis meses é muito pouco tempo para recomeçar tudo de novo.
Hoje me encontro na segunda fase da pesquisa, onde coletei muitos gestos, tenho uma coleção de gestos no meu corpo que me fazem sentidos e a cada dia organizo-os diferentemente, respeitando meu estado do dia presente e assim a dramaturgia vai se constituindo.
Sobre a orientação: Convidei Key Sawao( diretora junto com o Ricardo Iazzetta da KeyZetta e cia) para essa orientação, além de admirar o modo que ela trabalha, é uma pessoa que vem me acompanhando artisticamente desde o começo, observo um olhar refinado e aberto que não está para me dirigir e sim diálogar abertamente com o que estou fazendo. Nossas conversas me dão força para continuar e tarefas para os próximos ensaios.
Sobre a música, convidei o compositor e músico Felipe Ribeiro, chegamos em um primeiro teste músical, a partir desse primeiro teste, pretendo aprofundar nesta composição.
Sobre a dramaturgia que obeservo até aqui:
Diferente do meu trabalho anterior ( Entre Contenções) que possui uma dramaturgia com começo, desenvolvimento e fim ( conclusão), uma dramaturgia linear; Neste, a intenção dramáturgica até aqui é de não chegar em um final ( conclusão) e sim apenas em um estado corporal que começa, se desenvolve e permanece no desenvolvimento e não se resolve.
Sobre o Blog: O Blog vejo hoje em dia como um trabalho paralelo a pesquisa, importante para dar uma organizada nas idéias, mas não fundamental para o desenvolvimento da pesquisa e sim mais uma ferramenta; Comecei achando que ia usá-lo como diário, iria postar dia a dia do trabalho e no fim organizar tudo, percebi que é envialvel, ou me dedico na pesquisa ou me dedico na manutenção ferrada do blog.
Sobre algumas referências que postei no blog, são mais escritos e imagens que diálogam e me inspiram em relação a pesquisa.
Após esse final de ano, retomo com uma maior atenção para a dramaturgia e como apresentar esse material para o público em março.
Não irei me focar em organizar um espetáculo e sim me concentrar em como mostrar esse material, respeitando a ferro e fogo o sentido que construi ao longo do percurso de pesquisa.
Até agora a pergunta Como superar o grande cansaço? é o que me faz continuar a dançar e minha dança não é a resposta dessa pergunta.
Estudos de Nietzcshe
Estudos dos livros Genealogia da moral, Ecce Hommo, Assim Falou Zaratustra e trechos do Artigo de Joana Brito de Lima sobre o tema Grande cansaço.
O diagnóstico de Nietzche sobre o homem moderno, indica a predominância de um grande cansaço, relacionado ao modo de vida desenvolvido pela civilização judaico-cristã.
” A visão do homem agora cansa, o que é hoje o niilismo, se não isto?…..Estamos cansados do Homem….” ( Nietzsche)
É uma denuncia a degradação dos valores humanos, relacionadas a uma vida de negação e decadência.
O niilismo, ou literalmente redução do nada , é o sintoma do grande cansaço que acomete a sociedade civilizada constituida como rabanho, uma vez que permanecem guiadas por forças que são alheias.
Com a critica ao rebanho social Nietzche propõe uma relação diferenciada perante a vida que vença o cansaço instaurado com o niilismo.
A medida em que desperta a falta de sentidos e absurdos da existência, o niilismo provoca um horror ao vacuo: ” Ele (o homem) precisa de um objetivo e prefirará ainda querer o nada, a nada querer” Nietzche.
A vontade de nada é uma forma de se proteger da falta de sentido para a existência. No entanto, esses valores vazios aumentam o niilismo do qual procuram escapar, constituindo a má consciência, isto é, uma existência niilista guiada pela negação e ausência de valores. Com a má consciência
se instala o ressentimento e a culpa em relação a “maior e mais sinistra doença, da qual até hoje não se curou a humanidade, o sofrimento do homem com o homem, consigo” (Nietzsche). O grande cansaço e a má consciência, enquanto conseqüências da civilização niilista, provocam o nivelamento da humanidade sob uma moral reativa e resignada.
Resta, então, relegar-se ao niilismo ou supera-lo.
Para Nietzche atravessar o niilismo gera uma nova forma de existência. Superior e efetivamente livre.
Com isto, torna-se possivel afirmar a vida, sem precisar se isentar das escolhas sociais e individuais.
A liberdade se encontra na decisão de assumir o peso da construção do percurso a ser cumprido durante a vida. Abandonar o niilismo significa se destituir do sentimento de culpa e do sofrimento resentido do passado.
Ser livre significa descobrir a si mesmo, sem esperar que os acasos encaminhem o percurso.
” Somente quem sabe para onde vai , sabe, também , que vento é bom e favoravel a sua navegação” (Nietzche)
“…..o homem é uma ponte e não um ponto de chegada….” ( Nietzche)
Recado da Vera Sala
Olá Para todos
Tenho lido os blogs e penso que uma colocação que poderia fomentar as reflexões é a de que o fazer artístico tem de encontrar na prática as suas próprias questões, reflexões e elaborações de conceitos se for o caso. Acho que entender pesquisa e processos tem a ver com a continuidade deste fazer que vai elaborando suas questões e a maneira como elas aparecem no mundo como dança, no caso. Mostrar processo é elaborar e estabilizar uma organização deste material. Quando se tem um processo continuado de investigação, aquilo que se mostra é sempre uma configuração provisória, pois deste fazer sempre emergem novas direções, nova reflexões e questões que apontam uma possibilidade de continuidade que desestabilizam organizações anteriores. Acho que mostrar a pesquisa é mostrar esta estabilidade provisória daquilo que está sendo criado e pesquisado.
Vera Sala
Motohiko Odani
15/10/2009
No improviso meus braços se acabam.
Quero chegar nesse cansaço, como um oposto de um corpo cansado, uma luta no corpo no chão, como se essa luta fosse a causa do cansaço, a não entrega, o expurgo do cansaço.
Ao contrario do cansaço, o corpo potente, indo nos seus instintos, desesperos e alivios.
Bem ardua essa parada.
Percebo algumas células de movimentos que aparecem e continuam, umas por escolhas, outras não ,essas me fazem sentido após o fazer e assistir..
celula 1: movimento da perna que desde o começo aparece.
celula 2: balanço com o tronco, um corpo que não aguenta, mas continua porque está vivo.
celula 3: Espasmos com o cotovelo, queda ombro, queda cabeça e desistência.
Celula 4: o empurrar o chão , o corpo que quer sair do chão e desiste, sede.
celula 5 : Batidas com o braço no tronco, como se fosse um auto mutilamento, a dor.
Não quero cair no dramático, mas não tenho como fugir no momento.
Não quero dancar a toa, mas no momento não tenho como fugir, preciso dançar muito a toa, para conseguir chegar numa razão.
dançar por uma razão, ou sem nenhuma razão. escolhas…









